A cidade é um chão de palavras pisadas a palavra criança a palavra segredo. A cidade é um céu de palavras paradas a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira pela palavra água pela palavra brisa A cidade é um poro um corpo que transpira pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas como estátuas mandadas apear. A cidade tem ruas de palavras desertas como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra. A palavra silêncio é uma rosa chá. Não há céu de palavras que a cidade não cubra não há rua de sons que a palavra não corra à procura da sombra de uma luz que não há.
O 25 de Abril já passou há alguns dias, contudo, gostava de partilhar hoje um pequeno poema de Sophia de Mello Breyner. Poema em que "silêncio" e "noite" transportam a ambiguidade da ditadura, da falta de conhecimento e informação e da falta de liberdade. A "madrugada" é "inteira" e traz assim esperança, liberdade e os sonhos de um povo.
E porquê? Talvez porque tenho muita pena de não ter vivido a Revolução dos Cravos. Talvez porque me orgulho muito de ter sido uma revolução sem sangue e por ideais e sonhos que normalmente já ninguém dá credibilidade ou valor. Talvez porque me emociono com os sentimentos demonstrados porque quem a viveu. Talvez porque sou uma amante da Vida e da Liberdade. Idealista? Talvez, mas acho que não saberia viver de outra forma.
Reparem como tão poucas palavras podem significar tantas coisas:
25 DE ABRIL Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
(Peço desculpa se me entusiasmo e se roço uma análise de poema enfadonha de Português de Secundária! Juro que me tento controlar... )
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos
sobre os “is” em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando
está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante…
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade.
... com um poema, na minha opinião, de sempre e para sempre, simples e ao mesmo tempo tão cheio. Dos meus poemas preferidos. Tenho-o repetidamente afixado no meu quarto, nomeadamente, no meio do painel em que tenho as fotografias das pessoas que contribuem para que eu tente diariamente ser inteira, dentro da medida do possível.
Escolho encarar a vida desta forma. Sim, acredito que se trata apenas de uma escolha. O meu desejo é que escolham também.
Para ser grande, sê inteiro... Para ser grande, Sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a Lua toda Brilha, porque alta vive.
Curiosidade (pelo menos para mim): Abaixo, o mapa astral de Ricardo Reis, segundo Fernando Pessoa. Fê-los para alguns heterónimos.
Várias questões (deliciosas) se levantam: - Um génio como Fernando Pessoa credibilizava os signos? - Fernando Pessoa sabia fazer mapas astrais?
Hoje brindo-vos com Alberto Caeiro. Ando, assim, a querer ensinar-me a ser mais simples, ainda que goste de ser minimanente complicada. Um bocadinho precisa-se. São perfis.
Por agora, vai-me apetecendo estar simples na vida.
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!
Hoje, entre situações que precisava resolver, fiz jus ao pacotinho de açúcar da Nicola "Um Dia Vou Ser Turista na Minha Cidade": Tavira. Solão, carro estacionado nos arredores e andar a pé em direcção aos meus diversos destinos. Vou continuar à tarde. Apenas vim a casa almoçar e brevemente comunicar para este cantinho.
Ando positiva. Mais positiva. Efeito terapêutico do sol?! :) Talvez a este se some o fechar de um ciclo, pois, afinal, diz o povo que de 7 em 7 anos acontece e o meu último foi aos 18, bem me lembro. Aproxima-se igualmente o fim do curso (2 meses!!!) e com ele o desejado estado de estar completamente entregue ao meu trabalho, que tanto gozo me dá. É bom. Gosto de fechar ciclos e de abrir outros. Tenho-os fechado bem, sinto-o, ainda que atribulados, pela fritinha que sou. :) Mas valem-me os fritanços, porque uma vez fechados, tenho entrado com os dois no degrau seguinte. Aí vem outro, definitely.
Pelo caminho, comprei mais um caderno para andar na mala. Daqueles deliciosos. O meu último durou 3 meses, ainda não terminou, tem umas 15 ou 16 folhinhas ainda, mas não resisti em comprar outro (mais um!), porque tinha um formato giro e dava para encaixar a caneta (tenho este critério rigoroso de selecção para cadernos de mala!). Num design maioritariamente preto e branco, numa mistura muito interessante de palavras em espanhol, ressalta um separador interior vermelho (a fazer pamdam com o fecho!), que me chamou à atenção pelo poema revigorante que incluía, em vários tamanhos, vários letterings, parecendo uma miscelânia de recortes de jornal (loveit!).
Este pequeno poema de bolso, sem autor nem título anunciado, hoje, alentou-me:
Si quieres "transecular" no dejes nunca de amar, llenarte todos los días los pulmones de alegría, correr desde la mañana después de una buena nana, reír de todas maneras como cuando niño eras, observar cuánta sorpresa nos da la naturaleza y confianza has de tener hasta que va anochecer. ? Y después qué pasará? ! Quien no duerma lo verá!
A língua espanhola continua a ser uma das minhas preferidas para ler poesia. Parece que até se se ler uma receita em espanhol soará sensual.
Parece-me de bom tom que, a partir de agora, comece a institucionalizar um dia por semana para, aqui, neste meu humilde espaço, partilhar convosco um poema que considere sugestivo e pertinente ao dia, à disposição, à fase, etc. Fica assim o "Um Para Ti". Que vos seja sugestivo, como me foi.
Tal como te disse, caríssima MJ, na balança entre o "Carpe Diem" e o "Xô, nem queiro saber" vivemos o limbo de não perceber nada das emoções, por muito que se viva. O que tem de esquizofrénico, tem de delicioso.
Ricardo Reis dizia-lo bem. Sintas ou não sintas, esqueças ou não páres de pensar, "o rio continua sempre".
Gosto de ler este poema. Sempre o achei uma visão bonita da coisa. Ainda que pareça triste, é serena. É apenas outra visão. Às vezes sinto isto. Só às vezes. ;)
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos, Se quisessemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento - Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio, Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio, Pagã triste e com flores no regaço.
Da mistura entre o cheiro da terra molhada, depois de uma noite de chuva, e a falta de mais cor num céu cinzento que anuncia a chegada do Outuno, bebo um bocadinho de António Botto, neste poema que para mim é o Outono, como poucas outras coisas.
Faz frio. Outono. Chuvisca.
Nos Jardins cai agora o desconforto Do adeus do fim do dia. Passo o vento arrefecendo As flores nos seus canteiros E um sopro de claridade Beija uns lírios e umas rosas Numa curva fugidia...
Estremecem os meus nervos Como se alguém lhes tocasse...
Engrossou a ventania.
As árvores vão ficando Como coisas que perderam A consistência da vida.
Tombam as folhas. E a noite Agita uns lenços de sombra E fica mais negra e funda Nesta simples despedida.
Está uma noite esplêndida. Estou na varanda, num estado que o algarvio tão bem define de "escalmerrada"! :) O fresquinho do chão é o melhor palco, aqui, de onde vos escrevo. Inevitavelmente agarro-me à poesia debaixo das estrelas, num momento de profundo prazer e deleite depois de um dia cheio, quente, pesado.
Pablo Neruda, um poeta chileno de overdose romântica, escreve paixão como ninguém. One of my favourites! Sente forte e a língua sul americana dá a melodia perfeita aos seus versos. Dá-lhes a sensualidade que eles procuram na boca de quem os lê. A voluptuosidade de um coração latino.
Deixo-vos um poema que fala de mais uma mulher da sua vida, mas que, na sua boca, ganha a ilusão de exclusividade. Sim, porque este senhor era um papy das chicas! :)
É um dos meus favoritos. Fala simples e bonito. :) Ideal para quem tiver para aí com dor de corno, pois é disso que fala. :) (Não!!! Não estou apaixonada, para os mais curiosos. Apenas gosto do poema, tá?!)
Não resisto em deixar-vos também em espanhol (vide vídeo acima).
Vejam se não ganha outra força. ;)
POSSO ESCREVER OS VERSOS...
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
(Fonte: "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada")
Nascido em Abrantes em 1897 e amigo pessoal de Fernando Pessoa, Botto sempre foi perseguido pelo sua postura abertamente homossexual e que, no contexto da época, era escandolosa, no entanto, foi casado até ao final da sua vida com Carminda Silva Rodrigues ("O casamento convém a todo homem belo e decadente", como escreveu).
A sua obra reflete muito da sua orientação sexual e no seu conjunto é considerado, por muitos como, provavelmente, o autor do mais distinto conjunto de poesia homoerótica de língua portuguesa.
Escreve com o corpo, mais que com a alma, a meu ver. Os sentidos são os seus sentimentos, ou despoletam-nos. Não consigo deixar de não encontrar beleza nisto, mesmo porque acredito nesta pureza. A pureza da Natureza, nua e crua. Sem adquiridos.
Note-se que, curiosamente, ele fala de amor... amor que, para Botto, é desejo. Ama, desejando.
E afinal o que é o amor?... A minha eterna, eterna dúvida.
Gosto especialmente deste poema que partilho.
"Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.
Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha
–Se tanto for necessário
Para ser compreendido."
Quem não sente que, por vezes, não é compreendido? O contexto não é importante.
Lembro este poema com o maior carinho. Foi numa aula do nosso querido professor de Português (foi também meu encenador no Grupo de Teatro da Escola Secundária!), Luís Gonçalves, que nos acompanhou todo o Secundário, um professor que me marcou para sempre, pelo profissionalismo, pela paixão e entrega, e, acima de tudo, pela humanidade! Uma proposta de ensino em Itália aliada à sua profunda desilusão com o nosso país, fê-lo partir... Não sem deixar a mais profunda marca em muitos alunos!
Eugénio de Andrade foi um dos poetas contemporâneos que fazia parte do programa obrigatório para o Exame Nacional de 12ºano de Português A, no ano lectivo de 2001/2002.
No dia em que lemos este poema na aula, nesse dia especial que me marcou não apenas a mim, foi difícil conter as lágrimas até daqueles que não engraçavam muito com a poesia. É daquelas coisas que nunca hei-de perceber porque é que acontecem... é aquilo a que chamamos MAGIA. Ainda hoje, não consigo ler este poema sem, pelo menos, me arrepiar.
Sempre quis agradecer ao professor Luís Gonçalves pelo enorme contributo que deu na minha vida, por aprofundar a sensibilidade da escrita e da leitura, por me mostrar que não há que ter vergonha de gostar de poesia, a necessidade da liberdade de expressão, o respeito pelo próximo, a luta pela Vida e a aprendizagem com os dissabores... Contributo este que dificilmente conseguirei pôr em palavras. Todas as pessoas deviam ter um professor assim na vida. Já ouviram falar no filme "Clube dos Poetas Mortos"? Nem mais... :)
Aqui fica o poema (mais lindo!) de Eugénio de Andrade para recordar:
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
E apesar de tudo, Eugénio de Andrade é um poeta a quem nunca diremos adeus! Poeta da vida, que escrevendo da forma mais simplista, atinge a complexidade dos mais profundos sentimentos!