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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Um para Ti - III

Hoje, convosco, Ricardo Reis...

... com um poema, na minha opinião, de sempre e para sempre, simples e ao mesmo tempo tão cheio. Dos meus poemas preferidos. Tenho-o repetidamente afixado no meu quarto, nomeadamente, no meio do painel em que tenho as fotografias das pessoas que contribuem para que eu tente diariamente ser inteira, dentro da medida do possível.

Escolho encarar a vida desta forma. Sim, acredito que se trata apenas de uma escolha.
O meu desejo é que escolham também.

Para ser grande, sê inteiro...

Para ser grande, Sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a Lua toda
Brilha, porque alta vive.


Curiosidade (pelo menos para mim): Abaixo, o mapa astral de Ricardo Reis, segundo Fernando Pessoa. Fê-los para alguns heterónimos.



Várias questões (deliciosas) se levantam:
- Um génio como Fernando Pessoa credibilizava os signos?
- Fernando Pessoa sabia fazer mapas astrais?

Queria tanto fazer um mapa astral SÉRIO...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio"

Tal como te disse, caríssima MJ, na balança entre o "Carpe Diem" e o "Xô, nem queiro saber" vivemos o limbo de não perceber nada das emoções, por muito que se viva.
O que tem de esquizofrénico, tem de delicioso.

Ricardo Reis dizia-lo bem. Sintas ou não sintas, esqueças ou não páres de pensar, "o rio continua sempre".


Gosto de ler este poema.
Sempre o achei uma visão bonita da coisa. Ainda que pareça triste, é serena. É apenas outra visão. Às vezes sinto isto. Só às vezes. ;)


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quisessemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis