quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio"

Tal como te disse, caríssima MJ, na balança entre o "Carpe Diem" e o "Xô, nem queiro saber" vivemos o limbo de não perceber nada das emoções, por muito que se viva.
O que tem de esquizofrénico, tem de delicioso.

Ricardo Reis dizia-lo bem. Sintas ou não sintas, esqueças ou não páres de pensar, "o rio continua sempre".


Gosto de ler este poema.
Sempre o achei uma visão bonita da coisa. Ainda que pareça triste, é serena. É apenas outra visão. Às vezes sinto isto. Só às vezes. ;)


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quisessemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis

6 postas de pescada:

Joacine Katar Moreira disse...

Ricardo Reis também é um heterónimo meu... na medida em que como Fernando Pessoa, carrego em mim uma personalidade que é sósia dele.

Lindo e Verdadeiro, ver a vida como um rio. O rio dá-nos uma aprendizagem que só os sábios conseguem praticar: a manobra do "contorno".
Contornar silenciosamente montanhas, rochas duras, os desvios do percurso...
O ser humano comum (comme moi) tem tendência em enfrentar os problemas, mergulhar de cabeça (e depois bater a cabeça contra rochas, ai!).

Oxalá eu consiga crescer, e consiga também contornar...

Grão de Areia disse...

Já te disse que és linda?

;)

Joacine Katar Moreira disse...

Risos...
Já ouviste dizer que "Um cigano reconhe outro cigano"?

Grão de Areia disse...

Por acaso, nunca! :)

Mas metáforas à parte, também sempre achei que tinha uma veia qualquer de cigana, por coisas como adorar encher-me de quinquilharia (de preferência que chocalhe bastante), anéis cachuchos, acampamentos, andar sempre carregada com a casa à costas, dançar bastante, festanças de 3 dias non stop, etc...

eheheh

Á parte disto, tenho muita vontade de conhecer, moça, até porque, à partida, "quem é amigo do meu amigo, é meu amigo também"!

;)

Joacine Katar Moreira disse...

Mai nada!
Temos de marcar isso.
Quero ir ao Sul porque não conheço a vossa terra Tavira.
Quando vieres a Lisboa, vens conhecer o meu cubico!
Uau!
E vamos "espic, espic all time".
Beijinhos

Anónimo disse...

Lindona...
Como também já partilhei contigo o Ricardinho lá dizia umas coisasinhas engraçadas...lirismos à parte continuo na mesma premissa.. Apaixonarmo-nos por uma pessoa sem fazer doi doi?? Para isso apaixonamos-nos por uma porta... entre correr o risco e sentir e não o correr e ficar sem sentir??Epah cada um que faça a sua melhor escolha...eu cá gosto de me sentir bem vivinha ;)

Beijinho, Misteriously J