domingo, 20 de abril de 2008

"Adeus" (Eugénio de Andrade) e Um Professor


Lembro este poema com o maior carinho.
Foi numa aula do nosso querido professor de Português (foi também meu encenador no Grupo de Teatro da Escola Secundária!), Luís Gonçalves, que nos acompanhou todo o Secundário, um professor que me marcou para sempre, pelo profissionalismo, pela paixão e entrega, e, acima de tudo, pela humanidade! Uma proposta de ensino em Itália aliada à sua profunda desilusão com o nosso país, fê-lo partir... Não sem deixar a mais profunda marca em muitos alunos!

Eugénio de Andrade foi um dos poetas contemporâneos que fazia parte do programa obrigatório para o Exame Nacional de 12ºano de Português A, no ano lectivo de 2001/2002.

No dia em que lemos este poema na aula, nesse dia especial que me marcou não apenas a mim, foi difícil conter as lágrimas até daqueles que não engraçavam muito com a poesia. É daquelas coisas que nunca hei-de perceber porque é que acontecem... é aquilo a que chamamos MAGIA. Ainda hoje, não consigo ler este poema sem, pelo menos, me arrepiar.

Sempre quis agradecer ao professor Luís Gonçalves pelo enorme contributo que deu na minha vida, por aprofundar a sensibilidade da escrita e da leitura, por me mostrar que não há que ter vergonha de gostar de poesia, a necessidade da liberdade de expressão, o respeito pelo próximo, a luta pela Vida e a aprendizagem com os dissabores... Contributo este que dificilmente conseguirei pôr em palavras. Todas as pessoas deviam ter um professor assim na vida. Já ouviram falar no filme "Clube dos Poetas Mortos"? Nem mais... :)

Aqui fica o poema (mais lindo!) de Eugénio de Andrade para recordar:

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


E apesar de tudo, Eugénio de Andrade é um poeta a quem nunca diremos adeus! Poeta da vida, que escrevendo da forma mais simplista, atinge a complexidade dos mais profundos sentimentos!




1 postas de pescada:

Joacine Katar Moreira disse...

Um poema lindo, manso e profundo.
Já o conhecia dos tempos do secundário.
De repente deu-me vontade de voltar a "viver" a poesia dos maravilhosos poetas que Portugal conseguiu gerar, mas demasiado envolventes para uma alma como a minha, que tudo sente e tudo transporta...