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segunda-feira, 15 de março de 2010

Um Para Ti - IX



A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um para Ti - VIII

Ando assim. A precisar de mim de mais formas.
A precisar de mim.

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro


No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço.


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Um Para Ti - VII


De férias, as leituras sabem melhor.
Chega-se a trocar mergulhos nas atraentes ondas pelo desfolhar de certas páginas.

Aqui deixo um trecho sábio de um certo livro, delicioso por sinal, que me anda a derramar em verdadeiro vício:

"- Não me ofenda Daniel. Recordo-lhe que está a falar com um profissional da sedução, e isso do beijo é para amadores e diletantes de pantufa. A mulher de verdade conquista-se pouco a pouco. É tudo uma questão de psicologia, como uma boa faena na praça.

- Ou seja, deu-lhe tampa.

- A Fermín Romero de Torres nem S. Roque dá tampas! O que acontece é que o homem (...) aquece como uma lâmpada: ao rubro num ápice e frio outra vez num ai. A fêmea, porém, aquece como um ferro de engomar, está a perceber? Pouco a pouco, a fogo lento (...). Mas lá quando aquece ninguém pára aquilo. Como os altos fornos da Biscaia.

(...)

Como no fundo sou um cavalheiro dos de antigamente, não me aproveito, e com um casto beijo na face me conformei. Porque eu não tenho pressa, sabe?

Há por aí pategos que acham que se puserem a mão no cu a uma mulher e ela não se queixar, já a têm no papo. Aprendizes. O coração de fêmea é um labirinto de subtilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro. Se quiser realmente possuir uma mulher, tem que pensar como ela, e a primeira coisa a conquistar-lhe é a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo."

(cit in A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón)




domingo, 31 de maio de 2009

Um Para Ti - VI

Talvez cresça hoje.

Os dias estão novos
E já não entro em casa da mesma maneira.

Sonho sem rumo,
Estou animada por não fazer a menor ideia para onde vou.

Vejo que estou neste espaço que sempre me teve afinal,
Mas onde nunca realmente tive os pés no chão.

Parto e volto,
Sem sair do sítio.

E cada vez trago mais comigo.
Gosto.

(Sim, musiquinha terrível e tal, mas apetecia-me mesmo esta!)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um Para Ti - V


Há dias em que a Humanidade me assusta. E desilude.
Não existe animal mais perverso que nós, certamente.
É tão fácil magoar os outros.


Falaram-me os Homens em Humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

Alberto Caeiro, in "Fragmentos"

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um Para Ti - IV

(Adorooo este cartaz!)

O 25 de Abril já passou há alguns dias, contudo, gostava de partilhar hoje um pequeno poema de Sophia de Mello Breyner. Poema em que "silêncio" e "noite" transportam a ambiguidade da ditadura, da falta de conhecimento e informação e da falta de liberdade. A "madrugada" é "inteira" e traz assim esperança, liberdade e os sonhos de um povo.

E porquê?
Talvez porque tenho muita pena de não ter vivido a Revolução dos Cravos. Talvez porque me orgulho muito de ter sido uma revolução sem sangue e por ideais e sonhos que normalmente já ninguém dá credibilidade ou valor. Talvez porque me emociono com os sentimentos demonstrados porque quem a viveu. Talvez porque sou uma amante da Vida e da Liberdade.
Idealista? Talvez, mas acho que não saberia viver de outra forma.

Reparem como tão poucas palavras podem significar tantas coisas:

25 DE ABRIL
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Peço desculpa se me entusiasmo e se roço uma análise de poema enfadonha de Português de Secundária! Juro que me tento controlar... )

terça-feira, 28 de abril de 2009

Um Para Ti - III


É ver o copo meio cheio.
É o meu poema do dia, neste dia do caralhete...

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos
sobre os “is” em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando
está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante…

Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.

Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade.
(Pablo Neruda)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Um Para Ti - II


Hoje brindo-vos com Alberto Caeiro. Ando, assim, a querer ensinar-me a ser mais simples, ainda que goste de ser minimanente complicada. Um bocadinho precisa-se. São perfis.

Por agora, vai-me apetecendo estar simples na vida.


Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro

segunda-feira, 30 de março de 2009

Um Para Ti - I

Hoje, entre situações que precisava resolver, fiz jus ao pacotinho de açúcar da Nicola "Um Dia Vou Ser Turista na Minha Cidade": Tavira.
Solão, carro estacionado nos arredores e andar a pé em direcção aos meus diversos destinos.
Vou continuar à tarde. Apenas vim a casa almoçar e brevemente comunicar para este cantinho.

Ando positiva. Mais positiva. Efeito terapêutico do sol?! :)
Talvez a este se some o fechar de um ciclo, pois, afinal, diz o povo que de 7 em 7 anos acontece e o meu último foi aos 18, bem me lembro. Aproxima-se igualmente o fim do curso (2 meses!!!) e com ele o desejado estado de estar completamente entregue ao meu trabalho, que tanto gozo me dá.
É bom. Gosto de fechar ciclos e de abrir outros. Tenho-os fechado bem, sinto-o, ainda que atribulados, pela fritinha que sou. :) Mas valem-me os fritanços, porque uma vez fechados, tenho entrado com os dois no degrau seguinte.
Aí vem outro, definitely.

Pelo caminho, comprei mais um caderno para andar na mala. Daqueles deliciosos. O meu último durou 3 meses, ainda não terminou, tem umas 15 ou 16 folhinhas ainda, mas não resisti em comprar outro (mais um!), porque tinha um formato giro e dava para encaixar a caneta (tenho este critério rigoroso de selecção para cadernos de mala!).
Num design maioritariamente preto e branco, numa mistura muito interessante de palavras em espanhol, ressalta um separador interior vermelho (a fazer pam dam com o fecho!), que me chamou à atenção pelo poema revigorante que incluía, em vários tamanhos, vários letterings, parecendo uma miscelânia de recortes de jornal (love it!).




Este pequeno poema de bolso, sem autor nem título anunciado, hoje, alentou-me:

Si quieres "transecular"
no dejes nunca de amar,
llenarte todos los días
los pulmones de alegría,
correr desde la mañana
después de una buena nana,
reír de todas maneras
como cuando niño eras,
observar cuánta sorpresa
nos da la naturaleza
y confianza has de tener
hasta que va anochecer.
? Y después qué pasará?
! Quien no duerma lo verá!

A língua espanhola continua a ser uma das minhas preferidas para ler poesia.
Parece que até se se ler uma receita em espanhol soará sensual.

Parece-me de bom tom que, a partir de agora, comece a institucionalizar um dia por semana para, aqui, neste meu humilde espaço, partilhar convosco um poema que considere sugestivo e pertinente ao dia, à disposição, à fase, etc. Fica assim o "Um Para Ti".
Que vos seja sugestivo, como me foi.

Have a nice day!

;)