morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos
sobre os “is” em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando
está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante…
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade.
Está uma noite esplêndida. Estou na varanda, num estado que o algarvio tão bem define de "escalmerrada"! :) O fresquinho do chão é o melhor palco, aqui, de onde vos escrevo. Inevitavelmente agarro-me à poesia debaixo das estrelas, num momento de profundo prazer e deleite depois de um dia cheio, quente, pesado.
Pablo Neruda, um poeta chileno de overdose romântica, escreve paixão como ninguém. One of my favourites! Sente forte e a língua sul americana dá a melodia perfeita aos seus versos. Dá-lhes a sensualidade que eles procuram na boca de quem os lê. A voluptuosidade de um coração latino.
Deixo-vos um poema que fala de mais uma mulher da sua vida, mas que, na sua boca, ganha a ilusão de exclusividade. Sim, porque este senhor era um papy das chicas! :)
É um dos meus favoritos. Fala simples e bonito. :) Ideal para quem tiver para aí com dor de corno, pois é disso que fala. :) (Não!!! Não estou apaixonada, para os mais curiosos. Apenas gosto do poema, tá?!)
Não resisto em deixar-vos também em espanhol (vide vídeo acima).
Vejam se não ganha outra força. ;)
POSSO ESCREVER OS VERSOS...
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
(Fonte: "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada")