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terça-feira, 28 de abril de 2009

Um Para Ti - III


É ver o copo meio cheio.
É o meu poema do dia, neste dia do caralhete...

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos
sobre os “is” em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando
está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante…

Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.

Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade.
(Pablo Neruda)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Posso Escrever os Versos... (Pablo Neruda)




Está uma noite esplêndida.
Estou na varanda, num estado que o algarvio tão bem define de "escalmerrada"! :)
O fresquinho do chão é o melhor palco, aqui, de onde vos escrevo.
Inevitavelmente agarro-me à poesia debaixo das estrelas, num momento de profundo prazer e deleite depois de um dia cheio, quente, pesado.

Pablo Neruda, um poeta chileno de overdose romântica, escreve paixão como ninguém. One of my favourites! Sente forte e a língua sul americana dá a melodia perfeita aos seus versos.
Dá-lhes a sensualidade que eles procuram na boca de quem os lê. A voluptuosidade de um coração latino.

Deixo-vos um poema que fala de mais uma mulher da sua vida, mas que, na sua boca, ganha a ilusão de exclusividade. Sim, porque este senhor era um papy das chicas! :)

É um dos meus favoritos. Fala simples e bonito. :) Ideal para quem tiver para aí com dor de corno, pois é disso que fala. :)
(Não!!! Não estou apaixonada, para os mais curiosos. Apenas gosto do poema, tá?!)

Não resisto em deixar-vos também em espanhol (vide vídeo acima).

Vejam se não ganha outra força. ;)


POSSO ESCREVER OS VERSOS...

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.


Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

A minha alma não se contenta com havê-la perdido.


Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.

O meu coração procura-a, e ela não está comigo.


A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.

Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.


Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.

Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.


De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.


Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.

É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.


Porque em noites como esta a tive nos meus braços,

a minha alma não se contenta com havê-la perdido.


Embora esta seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Fonte: "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada")