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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Faz Frio. Outono. Chuvisca.


Da mistura entre o cheiro da terra molhada, depois de uma noite de chuva, e a falta de mais cor num céu cinzento que anuncia a chegada do Outuno, bebo um bocadinho de António Botto, neste poema que para mim é o Outono, como poucas outras coisas.


Faz frio. Outono. Chuvisca.

Nos Jardins cai agora o desconforto
Do adeus do fim do dia.
Passo o vento arrefecendo
As flores nos seus canteiros
E um sopro de claridade
Beija uns lírios e umas rosas
Numa curva fugidia...

Estremecem os meus nervos
Como se alguém lhes tocasse...

Engrossou a ventania.

As árvores vão ficando
Como coisas que perderam
A consistência da vida.

Tombam as folhas. E a noite
Agita uns lenços de sombra
E fica mais negra e funda
Nesta simples despedida.

António Botto

terça-feira, 29 de abril de 2008

"Se Duvidas Que Teu Corpo" (António Botto)



Sempre gostei de António Botto.


Nascido em Abrantes em 1897 e amigo pessoal de Fernando Pessoa, Botto sempre foi perseguido pelo sua postura abertamente homossexual e que, no contexto da época, era escandolosa, no entanto, foi casado até ao final da sua vida com Carminda Silva Rodrigues ("O casamento convém a todo homem belo e decadente", como escreveu).

A sua obra reflete muito da sua orientação sexual e no seu conjunto é considerado, por muitos como, provavelmente, o autor do mais distinto conjunto de poesia homoerótica de língua portuguesa.


Escreve com o corpo, mais que com a alma, a meu ver. Os sentidos são os seus sentimentos, ou despoletam-nos. Não consigo deixar de não encontrar beleza nisto, mesmo porque acredito nesta pureza. A pureza da Natureza, nua e crua. Sem adquiridos.
Note-se que, curiosamente, ele fala de amor... amor que, para Botto, é desejo. Ama, desejando.
E afinal o que é o amor?... A minha eterna, eterna dúvida.

Gosto especialmente deste poema que partilho.



"Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha
–Se tanto for necessário
Para ser compreendido."

Quem não sente que, por vezes, não é compreendido? O contexto não é importante.