Mostrar mensagens com a etiqueta fernando pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fernando pessoa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

"Primeiro Estranha-se. Depois Entranha-se"

É uma expressão muito usada em Portugal. A sua origem é curiosa.

"Primeiro Estranha-se. Depois Entranha-se." foi o slogan criado em 1927, por Fernando Pessoa, para funcionar na publicidade da Coca-Cola, a pedido desta empresa, mas que nunca foi usado. É que parece que este slogan esteve na origem do fim da comercialização da Coca-Cola até 25 de Abril de 1974, em Portugal.

Tudo isto porque o director de Saúde de Lisboa - O dr. Ricardo Jorge justificava o seu entendimento argumentando que se do produto faz parte a coca, da qual é extraído um estupefaciente, a cocaína, a mercadoria não podia ser vendida ao público, para não intoxicar ninguém; mas se o produto não tem coca, então anunciá-lo com esse nome para o vender seria burla, o que igualmente justificava que ele não fosse permitido no mercado.

Perante o slogan de Fernando Pessoa, o dr. Ricardo Jorge entendia que ele era o próprio reconhecimento da toxicidade do produto, pois que, se primeiro se estranhava e depois se entranhava, isso era precisamente o que sucedia com os estupefacientes que, embora tomados a primeira vez com estranheza, o paciente acaba por adquirir a sua habituação.

Óh, Dr. Ricardo Jorge... mais tabaco nisso!
E assim se diz cá por Portugal...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio"

Tal como te disse, caríssima MJ, na balança entre o "Carpe Diem" e o "Xô, nem queiro saber" vivemos o limbo de não perceber nada das emoções, por muito que se viva.
O que tem de esquizofrénico, tem de delicioso.

Ricardo Reis dizia-lo bem. Sintas ou não sintas, esqueças ou não páres de pensar, "o rio continua sempre".


Gosto de ler este poema.
Sempre o achei uma visão bonita da coisa. Ainda que pareça triste, é serena. É apenas outra visão. Às vezes sinto isto. Só às vezes. ;)


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quisessemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis